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25- O Veredito (The Verdict, Sidney Lumet, 1982)São poucos os dramas de tribunal realmente bons, a maioria esmagadora são um pé no saquinho, esse felizmente é excessão, não só porque o Lumet sempre foi um baita diretor e o Mamet um baita escritor, mas sobretudo porque quem segura as pontas é a dobradinha Newman-Mason duelando verbalmente na corte, tudo que Mason tem de suave e sorrateiro, Newman tem de incisivo. Um detalhe bacana é a semelhança entre a sala de reuniões dos advogados carniceiros de O Veredito com a sala da diretoria televisiva em Network, inclusive com o mesmo tipo de luminárias, o que torna ambos os filmes ainda mais geminados e a personagem de Mason colocada num paralelo moral com a de Ned Beatty em Rede de Intrigas. Sem dúvida o melhor filme do Lumet nos anos 80 e o último grande filme de Mason antes de falecer, não à toa Lumet afirmou que Mason fora o melhor ator com quem trabalhara durante toda a sua carreira, indo de encontro com a definição que a personagem de Jack Warden dera a Mason durante o filme: He’s the prince of fucking darkness!

26- A História de Três Amores (The Story of Three Loves, Gottfried Reinhardt / Vincente Minnelli, 1953)Will you kindly stop pretending I’m an ogre. I’m very simple, ordinary, kindly human being. Este portmanteau divide-se em três episódios: Equilibrium (do Reinhardt, com Pier Angeli & Kirk Douglas) num conto bacana sobre trapezismo, relacionamentos, confiança e erros passados; Mademoiselle (do Minnelli, com Leslie Caron e Farley Granger) que é uma espécie de versão original do Quero Ser Grande com Tom Hanks; e The Jealous Lover (também do Reinhardt, com Mason e Moira Shearer) com uma ode à Powell/Pressburger.
Em The Jealous Lover há uma cena onde Moira Shearer dança para Mason ao som de Rhapsody On a Theme of Paganini, tal momento é de uma beleza cortante, inclusive esse filme é ainda hoje mais conhecido como “aquele em que a Shearer dança Rachmaninoff”, talvez por isso seja o meu episódio favorito. Foi dirigido pelo filho de Max Reinhardt, o que provavelmente teria dado orgulho ao pai, muito me inclina dizer que a personagem de Mason é uma homenagem ao velho Max em toda sua loucura criativa. Imagino o quanto foi doloroso para Michael Powell e Emeric Pressburger ver Mason neste remake condensado de Sapatinhos Vermelhos, depois de tanta resistência em trabalhar com a dupla.

27- Crepúsculo das Águias (The Blue Max, John Guillermin, 1966)This is 1918. Things have changed. Mason é um alemão, again. É um elemento chave, again. É a melhor personagem do filme, again. Memorável filme de guerra, onde as cenas de ação aéreas e terrestres primam pela excelência, sobretudo por serem visualmente mais honestas do que as dos filmes atuais e possivelmente só perde como melhor filme sobre aviação para o imbatível Hell’s Angels de Howard Hughes. Último filme inglês de Guillermin, enquanto filmou na Inglaterra e França sempre se manteve um cineasta interessante, depois foi para os EUA e se anulou por completo.

28- O Castelo do Homem sem Alma (Hatter’s Castle, Lance Comfort, 1942)Robert Newman era um ator gigantesco e aqui ele encarna um Daniel Plainview versão chapeleiro louco, enquanto Mason faz as vezes do affair da filha do escocês tirânico vivida por Deborah Kerr. Mesmo Mason tendo um papel pequeno, ele é o único que pode fazer frente a Robert Newman, onde todas as cenas divididas por eles podemos sentir raios e trovões imaginários saindo de todos os cantos. Ó céus, Kerr e Mason formavam mesmo uma dupla linda e sensacional.

29- A Verdadeira História de Frankenstein (Frankenstein: The True Story, Jack Smight, 1973)Only fools like Henry Clerval want vulgar fame. I shall have the power that works unseen, that moves the world. You alone, Frankenstein, when you read in your newspaper that a monarch has been deposed or that two nations are at war with each other, will say to yourself : That’s the hand of Polidori. Mais uma versão de Frankenstein, ótima por sinal, pelo título estranho de “true story” e o fato de ser uma produção televisiva podemos cair na bobagem de pensar que este é um trabalho inferior, mas fiquei mesmo abismada com a sua qualidade, especialmente pela perspectiva psicológica com que a história é tratada. Detectei algumas nuances homossexuais no melhor estilo “In just seven days I can make you a man” e um clima meio Oscar Wilde (o fato de ter sido roteirizado por Christopher Isherwood ajuda muito), o que poderia recair numa das interpretações do livro de Mary Shelley, onde a criatura nada mais seria do que um alter-ego do próprio Victor e o equivalente ao quadro de Dorian Gray. Acho que esta é a versão mais complexa e cheia de interpretações de todas as versões fílmicas que já pude conferir sobre o Prometeu Moderno. Mason encarna John Polidori, uma homenagem ao criador do gênero vampiresco e um dos presentes no lendário desafio dos Shelleys naquela noite qualquer do século XIX.

30- O Sétimo Véu (The Seventh Veil, Compton Bennett, 1945)Este é o filme que conseguiu o passaporte de Mason para Hollywood. Mason é o tutor da orfã vivida por Ann Todd e, como todo bom ser que se preze, sua entrada em cena é com um gato a tira colo, enquanto Todd chega em sua presença já clamando que odeia tais felinos e que eles a assustam. Isso obviamente referia a personalidade de seu guardião, o qual se mostrará como um manco charmoso, dominador, introspectivo e que odeia ver pessoas felizes. Mais um desses filmes assolados pela onda da psicanálise nos anos 40, cujo maior atrativo é mesmo a irresistibilidade da personagem vivida por Mason, o que é mais do que suficiente.

I saw The Seventh Veil four times. That Mason is the greatest actor. – D.W. Griffith

31- Assassinato Por Decreto (Murder By Decree, Bob Clark, 1979)I’m trying to corner the last pea on my plate. Na melhor incursão de Sherlock Holmes nas telas, com trama original e que nada tem a ver com Conan-Doyle, Christopher Plummer vive o dito cujo, enquanto Mason é seu caro Watson e Donald Sutherland praticamente repete sua persona paranormal de O Inverno de Sangue em Veneza. Primeiro filme a utilizar a então recente teoria da conspiração proposta por Stephen Knight sobre Jack – O Estripador, Bob Clark (pós Black Christmas e pré Christmas Story) mescla tal teoria com o universo de Conan-Doyle com tino na climatização, mostrando atmosfera mais em comum com From Hell do que qualquer outra abordagem de Jack, a iluminação é tão escassa e existem tão poucas cenas à luz do dia que chegou o mais próximo do que se pode chamar “noir colorido”. O duo Plummer-Mason clama por toda atenção, tendo trabalhado diversas vezes juntos, quimíca é o que não falta na assimilação Holmes-Watson. Adoro Watson, tão lindo, tão sensível, tão fofo.

32- Júlio César (Julius Caesar, Joseph L. Mankiewicz, 1953)You died for your ambition, great it be. Sim, até tu. Brutus é um dos personagens mais fascinantes de Shakespeare e é este personagem que Mason encarna, o principal da peça, apesar de toda babação de ovo pelo Marlon Brando. Mason e John Gielgud poderiam perfeitamente picar aquele Brando em pedacinhos e guardar no bolso fácil, fácil. Mason era um ator essencialmente de cinema, o que o faz mais especializado do que outras lendas britânicas, mesmo tendo começado como ator de teatro não se tornou lendário neste meio como foram muitos de seus contemporâneos, por isso foi uma benção poder vê-lo em várias adaptações de peças, especialmente esta em que ele já representara nos palcos durante os anos 30. Toda aquela suavidade que fez a fama de Mason nas telas não tem vez nos palcos e qualquer tentativa de mudança em sua empostação de voz provavelmente tiraria sua naturalidade, por isso a benção é duplicada em vê-lo com tal personagem nas telas, não lhe foi necessário forçar a voz como o seria nos palcos. Não é dos meus Mankiewicz mais queridos, mas há grandes momentos por conta dos atores, não só pelo duo Mason-Gielgud, mas como eu já disse, porque Mason e Kerr formavam um casal lindo e sensacional. O texto ajuda, é claro, o populismo segundo William Shakespeare, devia-se dar mais atenção a tal peça por aí, se possível encená-la a exaustão em épocas eleitorais.
A fofoca do filme era o triângulo amoroso de todos os lados entre Mason, sua esposa Pamela e Mankiewicz, o que acabou causando um piti em Marlon Brando durante as filmagens por estar “favorecendo” Mason em cena, mas a verdade é que havia um racha entre os atores ingleses e os americanos do filme, eles não gostavam uns dos outros.

All of fucking Hollywood knows you’re plowing it to Mason and his beloved wife, Miss Pamela, every night. You’re the hottest mènage à trois in town. But that’s no excuse for you to favor your fuck boy here over me. It’s not professional. – Marlon Brando, com sua habitual lacuna de classe, berrando diante de todo o elenco sobre os divertimentos de Mankiewicz com o casal Mason.

33- La Città Sconvolta: Caccia Spietata ai Rapitori (Fernando Di Leo, 1975)Mason interpreta um italiano almofadinha e endinheirado neste poliziottesco dramático de vingança. Em dado momento Di Leo se auto-plagia refazando uma sequência de Milano Calibro 9 com direito a reutilização da trilha de Luis Bacalov e tudo, é nesse exato momento no meio do filme que há uma reviravolta estilística, se na primeira metade o conteúdo era um drama calmo, a partir da segunda metade a história se transforma num bem engendrado jogo de vingança.

34- A Noite tem Olhos (The Night Has Eyes, Leslie Arliss, 1942)Um dos filmes mais interessantes de Mason em sua fase inglesa, onde ele está mais belo e intrigante do que nunca e, descontando alguns momentos horrorosos com tiques que todos os atores e cineastas da época teimavam em manter, é um suspense que se mantêm eletrizante até o final e cuja atmosfera lembra muito obras como Os Inocentes e Os Outros. É um filme soturno, cheio de reviravoltas estilísticas, de início pensamos que estamos vendo um filme de lobisomem, depois um melodrama, depois um filme de psicopata qualquer, depois voltamos ao melodrama e temos um final razoavelmente surpresa. O clima mantido é dos mais clássicos, com direito a uma casa pouco habitada em meio aos pântanos e nevoeiros de Yorkshire, onde vivem um homem amargurado, sua governanta suspeita e seu caseiro aparentemente bonzinho, enquanto a jovem heroína chega e tenta solucionar os mistérios que envolvem tais pessoas.

35- Kill! Kill! Kill! Kill! (Romain Gary, 1971)Esse é o típico filme que todo mundo adora xingar e eu amo: Mason, violência, Romain Gary, tráfico de drogas, Jean Seberg, assassinos de aluguel, Stephen Boyd, pornografia, Curd Jürgens, crianças viciadas em heroína, sátira, Sam Peckinpah, Nouvelle Vague, psicadelia, trilha sonora de Berto Pisano & Jacques Chaumont… Ah, os anos 70! Algumas coisas só esta década sabia proporcionar.

36- Charade (Roy Lellino, 1953)Roy Kellino não guarda rancor, pois ele é um gentleman. Pouco mais de 10 anos depois de Mason ter um caso com a então esposa de Kellino durante as filmagens de I Met a Murderer e que acabou em divórcio, Kellino, Pamela e James voltam a formar o mesmo trio em suas funções cinematrográficas, com a diferença que agora Pamela é a Mrs Mason e não mais Mrs Kellino. Este é um portmanteau que faz uso de metalinguagem para unir as histórias, no primeiro episódio Mason vive um assassino por quem Pamela se apaixona após ser testemunha de um dos seus crimes. No segundo episódio, o mais fraco dos três, Mason é um oficial duelando por uma mulher. No terceiro ele encarna novamente um Jeeves da vida no melhor e mais cômico dos episódios, sobre um alto executivo que cansa dessa vida e vai ser modormo. No seguimento metalinguistíco que une as histórias, onde Mason está delineando os meios de produção de um filme (função esta que realmente exerce aqui, como igualmente a de roteirista ao lado de Pamela) e onde já podemos vê-lo com a barba do seu futuro Capitão Nemo, há uma forte influência de Na Solidão da Noite (Dead of Night, Hamer/Cavalcanti/Crichton/Dearden, 1945) não só no estilo de roteirização, como no de edição, o que é bem razoável, pois Dead of Night foi um dos mais influentes filmes ingleses dos anos 40.

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